Paraguaios escolhem novo presidente em cenário de alianças improváveis

O colorado Mario Abdo Benítez e o liberal Efraín Alegre são os principais candidatos
em disputa sem segundo turno, destaca a Folha de São Paulo

Diego Zerbato*

Cerca de 4,2 milhões de paraguaios estão convocados a votar neste domingo (22) para escolher o próximo presidente e o novo Congresso em um cenário político impensável um ano atrás.

Principais candidatos, Mario Abdo , 46, do Partido Colorado (direita), e Efraín Alegre, 55, do Partido Liberal (centro), eram contra a reeleição e estavam do lado contrário do presidente Horacio Cartes e do ex-presidente Fernando Lugo, hoje seus aliados, respectivamente.
Homônimo do pai, que foi braço direito do ditador Alberto Stroessner (1912-2006), o senador Marito era líder da Colorado Añetete (verdadeiro, em guarani), a ala mais conservadora do partido que governou o Paraguai em 65 dos últimos 70 anos, incluídos os 34 anos de ditadura.
Depois dos protestos contra a reeleição de Cartes, em 31 de março, quando parte do Congresso foi queimada e a polícia matou um militante liberal, ele continuou contra o presidente até dezembro, nas
eleições primárias do partido.
Prometendo linha dura contra o crime e a corrupção, melhoras na saúde e na educação e “a defesa da vida e da família”, conseguiu superar o ex-ministro Santiago Peña, candidato de Cartes, por sete pontos percentuais de diferença.
Logo após a vitória, parafraseou o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e ironizou o mandatário paraguaio. “A esperança venceu o medo no Paraguai. A soberba foi vencida hoje e sempre.”
Não levaria muito para que o discurso de Marito amenizasse. As pazes públicas foram feitas em 4 de fevereiro: “Quero agradecer de coração ao senhor presidente da República por me ajudar e por trabalhar de forma sincera”.

Foto: Eitan Abramovitch / AFP

Ele assegurava, então, a união do partido e o apoio não só do presidente, mas do empresário. Cartes é dono do grupo homônimo, que inclui investimentos em hotelaria, agropecuária, indústria de bebidas, aviação, tabaco e imprensa.
Para isso, no entanto, omitiu o aliado nas críticas à corrupção e reforçou o discurso de continuidade econômica. Nos demais aspectos, manteve a linha dura, incluindo propostas como o serviço militar obrigatório para filhos de mulheres solteiras para diminuir a criminalidade.
“Vamos usar os quartéis para que as pessoas aprendam como ser mecânico, eletricista, que cantem o hino nacional e que recuperem o orgulho de serem paraguaios.”
Na quinta (19), em comício que reuniu cerca de 50 mil pessoas, pregou a união entre os paraguaios –embora minutos antes tenha dito que o Partido Colorado “era a melhor ferramenta do país”.
“As pessoas estão cansadas de brigas estéreis. Quem se beneficia disso? O Paraguai precisa construir as pontes e derrubar as muralhas que nos dividiram por muito tempo como paraguaios.”
Enquanto Cartes se tornou um dos pilares de Marito, Efraín Alegre tenta pela segunda vez chegar à Presidência, agora com o apoio da Frente Guasú (esquerda), reeditando a aliança de 2008 que quebrou a sequência colorada no poder com Fernando Lugo.
Quatro anos depois, o ex-bispo seria derrubado pelo Congresso em um impeachment que durou 36 horas entre admissão e veredicto. A deposição foi um resultado de uma aliança entre os liberais, do vice Federico Franco, e os colorados.
A energia tornou-se sua principal bandeira: defende a redução das tarifas, a criação de infraestrutura para usar a eletricidade das usinas de Itaipu e Yacyretá em vez de vendê-la a Brasil e Argentina e a renegociação das tarifas.
Também promete a criação do imposto sobre o tabaco, barrado pelos colorados de Cartes no Congresso, para financiar a saúde básica gratuita. E, em oposição ao presidenciável adversário, promete levar os jovens “às universidades, não aos quartéis”.
Na campanha, criticou o colorado por sua insistência em reafirmar a identidade partidária. Chegou a desfraldar uma bandeira paraguaia no único debate entre os dois.

Foto: Jorge Adorno – Reuters

“Vamos deixar para trás aqueles que querem nos dividir por cor. Vamos deixar para trás todos aqueles que falam de família e querem nos dividir.
Vamos unir os paraguaios e as paraguaias contra a máfia e contra a corrupção”, disse, em seu último evento de campanha.

As últimas pesquisas de opinião indicam que Marito vencerá com ampla margem. Na primeira, do instituto Grau & Associados e do jornal Última Hora, em meados de março, ele aparece com 55,7% dos votos, contra 31,4% do liberal.
Já a First Análisis, em estudo no início do mês passado para o jornal ABC Color, havia apontado vitória do colorado com 53,2% dos votos e 22,2% da aliança liberal.
Os dois institutos erraram, porém, ao não preverem a vitória do próprio Marito na primária colorada e ao subestimarem os 48% que Cartes teria nas eleições de 2013.
A eleição não tem segundo turno. Vence quem consegue o maior número de votos

Vendedor passa por pôsteres de dois candidatos à Presidência paraguaia, Efraín Alegre e Mario Abdo Benítez, em Assunção – Norberto Duarte-20.abr.18/AFP

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Lile Corrêa

Jornalista, Radialista e Recordista Bi-Mundial incluso no Guinness Book