Uma onda de derrubadas de páginas no Instagram e YouTube reacende o debate sobre os limites da propriedade intelectual no meio religioso. De um lado, a segurança institucional; do outro, pequenos evangelizadores que se sentem silenciados.

Lile Correa entrevista padre Adriano Zandona e Frei Gilson no Desperta Brasil em São Paulo – Foto Bruna Correa
Nos últimos meses, o cenário digital católico brasileiro entrou em polvorosa. Administradores de pequenos perfis de evangelização, que dedicam horas diárias a compartilhar trechos de pregações e momentos de oração do Frei Gilson, têm relatado uma “limpa” sistemática. Através de notificações de direitos autorais, páginas inteiras — muitas com anos de história e milhares de seguidores — estão sendo desativadas.
O movimento, encabeçado pela assessoria jurídica do Frei e da comunidade Som do Monte, levanta uma questão central: até onde vai a proteção da imagem e onde começa o impedimento da evangelização gratuita?
O Lado dos Evangelizadores
Para muitos fiéis que administram essas páginas, a sensação é de desolação. “Trabalhamos de graça para o Reino, não monetizamos um centavo. O objetivo era apenas fazer a palavra chegar onde o canal oficial às vezes não alcança”, relata o administrador de um perfil que perdeu 50 mil seguidores da noite para o dia.
O argumento desses criadores é que a “evangelização orgânica” é o que sustenta o alcance de figuras como o Frei Gilson. Sem esses milhares de perfis replicando os vídeos, a mensagem ficaria restrita a uma única “bolha” oficial.
A Justificativa Jurídica: Proteção contra o Caos
Por outro lado, a equipe do Frei Gilson enfrenta desafios modernos gigantescos. Em um mundo de Deepfakes e Inteligência Artificial, o uso descontrolado da imagem do sacerdote tem servido de combustível para:
Golpes financeiros: Perfis fakes usando a voz do Frei para pedir dinheiro.
Venda de produtos duvidosos: Uso da imagem dele em anúncios de “curas” e suplementos.
Distorção de falas: Cortes mal-intencionados que geram polêmicas desnecessárias com a hierarquia da Igreja ou com a sociedade civil.
Para a assessoria, a única forma de garantir que o fiel está ouvindo o Frei Gilson “real” é centralizar o conteúdo nos canais oficiais, protegidos por selos de verificação.
O “Fogo Cruzado” na Internet
O impasse gera uma divisão na comunidade. Enquanto alguns fiéis defendem o direito da Igreja e do Frei de proteger sua propriedade intelectual, outros questionam se essa postura não estaria “institucionalizando demais” a fé e afastando aqueles que usavam suas redes apenas como um ato de amor a Deus.
O fato é que o algoritmo das redes sociais não distingue o “fã caridoso” do “golpista profissional”. Quando uma denúncia de direitos autorais é feita, a plataforma geralmente derruba o conteúdo — e o perfil — sem direito a muita conversa.


