ANPD determina suspensão das transmissões ao vivo do Discord no Brasil

Por Gabi Cenciarelli, g1 MS

A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou, nesta quarta-feira (12), a suspensão das transmissões ao vivo do Discord no Brasil. A decisão ocorre semanas após cinco adolescentes serem apreendidos e um homem preso por induzir o suicídio de uma adolescente de 13 anos, de Naviraí (MS), por um grupo formado na plataforma.

Isso não significa que o Discord está suspenso no país. A determinação atinge apenas a ferramenta de transmissões ao vivo. A suspensão será mantida até que a empresa comprove a adoção de medidas efetivas para proteger crianças e adolescentes.

A ANPD é uma agência reguladora vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, que tem como missão zelar pela proteção de dados pessoais de brasileiros.

O caso da menina de Naviraí deu origem à Operação Lívia, que chegou a cinco estados e revelou outras vítimas, planos de novos crimes e falhas nos mecanismos de proteção de menores na internet. O g1 entrevistou em exclusividade a mãe da criança, que deixou alerta às famílias com adolescentes.

O Discord é uma plataforma de comunicação bastante utilizada por jogadores de games online e também por adolescentes. A empresa tem sido alvo de críticas e investigações relacionadas a falhas na moderação de conteúdo e na verificação da idade dos usuários. 

Em nota, o Discord afirmou que recebeu a determinação e está “cuidadosamente analisando seu conteúdo”.

“A caracterização do Discord feita pela ANPD não reflete a plataforma que construímos nem os investimentos que temos feito na segurança dos usuários. O Discord não tolera grupos ou indivíduos que promovem ou incentivam a violência. Investigamos rapidamente e removemos o servidor privado, acessível somente por convite, envolvido no caso pouco depois de sua criação, e seguimos cooperando com as autoridades policiais na investigação”, diz o texto

Relembre o caso

Itens apreendidos durante operação 'Lívia', da PF — Foto: Reprodução/PF

Itens apreendidos durante operação ‘Lívia’, da PF — Foto: Reprodução/PF

A adolescente morreu em 22 de julho, dentro da casa onde vivia com a família, em Naviraí. Inicialmente, o caso foi tratado como suicídio, mas a investigação identificou que ela havia sido ameaçada, manipulada e coagida por integrantes de um grupo virtual. Com o avanço das apurações, a Polícia Civil passou a investigar a morte como homicídio.

Segundo a polícia, os criminosos procuravam principalmente crianças e adolescentes com perfis públicos nas redes sociais. Usando informações disponíveis na internet, criavam perfis falsos, conquistavam a confiança das vítimas e as levavam para outras plataformas, como Discord e Telegram.

A prática foi chamada pela Polícia Civil de “escravização virtual”. Depois da aproximação, os criminosos conseguiam informações pessoais e passavam a ameaçar as vítimas para obrigá-las a cumprir ordens e desafios violentos.

No dia 4 de agosto, a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul deflagrou a Operação Lívia, com apoio do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab), do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Cinco adolescentes, de 13 a 17 anos, e um jovem de 18 anos foram alvos de mandados em Mato Grosso do Sul, Ceará, Minas Gerais, Pará e Rio de Janeiro. O suspeito de chefiar o grupo é um adolescente de 14 anos, apreendido no Rio.

Durante as buscas, foram encontrados celulares, computadores, armas, materiais de apologia ao neonazismo e conteúdos de abuso sexual infantil. Os investigados são suspeitos de homicídio qualificado e organização criminosa.

Grupo planejava outros ataques

Cumprimento de mandados durante operação 'Lívia' — Foto: Reprodução/PF

Cumprimento de mandados durante operação ‘Lívia’ — Foto: Reprodução/PF

A operação também revelou que a menina de Naviraí não era a única vítima. Outra adolescente teria sido induzida à automutilação e ao suicídio durante uma transmissão, mas deixou a chamada. Segundo a investigação, o grupo ainda planejava uma nova ação contra outra vítima.

Durante coletiva sobre o caso, o coordenador do Ciberlab, Alessandro Barreto, classificou o que foi encontrado como um “espetáculo de horrores”. Segundo ele, após uma das transmissões, integrantes do grupo chegaram a fazer uma enquete perguntando se os participantes queriam mais e planejavam uma nova ação para o dia seguinte.

Falhas na verificação de idade

A investigação também apontou falhas nos mecanismos de proteção de menores. Segundo o Ciberlab, crianças e adolescentes conseguiam acessar os ambientes onde ocorriam as transmissões sem uma verificação efetiva de idade.

Um dos adolescentes investigados chegou a informar 1877 como ano de nascimento, o que indicaria uma idade de 148 anos. Na época, a Polícia Civil pediu o bloqueio do Discord, mas a solicitação não foi autorizada pela Justiça.

Na semana seguinte à operação, o caso ganhou repercussão nacional. A primeira-dama Janja da Silva afirmou que era necessário retirar “imediatamente” o Discord do ar e citou a morte da adolescente de 13 anos de Naviraí.