Clube de Imprensa

Abraji condena atitude de autoridade que gerou ataques contra repórter

ABRAJI

Uma repórter especializada em coberturas policiais na TV Vitória, afiliada da Record no Espírito Santo, foi vítima de uma onda de ataques virtuais e chegou a ser ameaçada de morte. As ofensas começaram na semana passada (15.ago.2023), depois que Alexandre Ramalho, secretário estadual da Segurança Pública e Defesa Social, postou nas redes sociais um vídeo da entrevista concedida por ele à Suellen Araújo.

Durante décadas, o noticiário policialesco foi criticado por se referir a suspeitos de forma jocosa e estereotipada e por falhar na apuração robusta dos fatos. Nos últimos meses, o Brasil tem sido sacudido por várias operações policiais que terminaram em mortes, cujos métodos e ações foram questionados por organizações de direitos humanos e jornalistas especializados em segurança pública. Foi nesse contexto que a repórter capixaba questionou Alexandre Ramalho sobre denúncias de que as cinco mortes que ocorreram no Morro do Macaco não teriam sido resultado de um confronto. Suellen Araújo se referiu a uma testemunha como “menino”, e aos mortos como “rapazes”.

Um vídeo editado da entrevista foi postado no Instagram pessoal do coronel com a seguinte legenda: “Continuaremos fazendo a nossa parte. Quanto aos rapazes….meninos….deixo os comentários com vocês”. A partir daí, as redes de Alexandre Ramalho foram inundadas de hostilidades contra a mídia e a repórter. Alguns desses posts, posteriormente apagados pelos agressores, continham palavras de baixo calão e xingamentos de cunho sexual contra a repórter.

Além da violência digital, uma pessoa não identificada ligou para a repórter e ameaçou matá-la. Diante da enxurrada de mensagens degradantes, Suellen Araújo se sentiu obrigada a fechar seu Instagram. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e o sindicato capixaba cobraram explicações em uma nota de repúdio.

Pelos dados do monitoramento da Abraji, já são ao menos 18 casos de violência digital contra mulheres jornalistas em 2023 – 44% envolveram ataques explicitamente machistas e misóginos, incluindo ameaças de morte e estupro.

Procurada, a assessoria de imprensa da Secretaria do Estado informou que o coronel Alexandre Ramalho utiliza as redes sociais pessoais para prestar “esclarecimentos e informações sobre sua atuação como gestor público, bem como apresentando as ações e operações dos órgãos de segurança pública ligados à pasta de sua competência”.

Na mesma nota, a assessoria declarou que a postagem “teve objetivo meramente informativo e de orientação social, sem qualquer intenção de atingir ou ofender a repórter, tampouco de incitar ou estimular que terceiros o fizessem” e que o secretário mantém “uma postura de respeito com os jornalistas e veículos de comunicação”.

Abraji perguntou se foram observados previamente os possíveis impactos do tipo de publicação que foi realizada, mas não obteve essa resposta.

Para a Abraji, é do jogo democrático criticar a imprensa. Mas não se pode normalizar declarações que abrem um terreno propício ao linchamento virtual de repórteres. Esperamos que o coronel Alexandre Ramalho use suas redes sociais para repudiar os ataques contra a jornalista.

Diretoria da Abraji, 25 de agosto de 2023.

Pular para o conteúdo