Brasil corre o risco de perder guerra contra boatos sobre a covid-19, alertam checadores

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Brasil corre o risco de perder guerra contra boatos sobre a covid-19, alertam checadores

Redação Portal IMPRENSA*
Assinado por seis jornalistas especializados em checagem de fatos, o texto “Autoridades, parem de distorcer os fatos” foi publicado na seção de opinião de diferentes jornais do país nesta quarta (8), incluindo  O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo.
Assinam o texto Natália Leal (Agência Lupa), Tai Nalon (Aos Fatos), Edgard Matsuki (Boatos.org), Gilmar Lopes (E-farsas), Daniel Bramatti (Estadão Verifica) e Cristina Tardáguila (International Fact-Checking Network).
O artigo alerta que o Brasil “corre o risco de perder a guerra contra os boatos sobre a Covid-19” e que as autoridades do país “contribuem de forma expressiva para o avanço da desinformação”.
“Desde o início da pandemia, políticos produziram, endossaram e compartilharam dados errados sobre vacinas, distanciamento social e a origem do novo coronavírus. Também usaram dados defasados e acabaram criando um ambiente de desconfiança econômica em que florescem golpes digitais”, prossegue o artigo.
Ainda de acordo com os checadores, ao fazer ou compartilhar uma declaração falsa, “autoridades têm conseguido inverter o sinal da mensagem ou inflar o que chega à população”.
“A hidroxicloroquina é um exemplo. Ao tratar como definitivos estudos ainda incipientes feitos com o medicamento, políticos  elevaram o medicamento à condição de cura para a Covid-19”, fazendo com que ele desaparecesse das farmácias, prejudicando os que, de fato, precisam dele, e expondo a efeitos colaterais os que a ingeriram em busca de proteção contra o novo coronavírus.
“É urgente, portanto, que as autoridades tenham responsabilidade ao falar sobre a pandemia. Que se certifiquem de que o conteúdo a ser exposto tem base científica, é atual e se refere ao local sobre o qual estão falando. Que cessem já os discursos distorcidos, com contextos minimizados ou teses na contramão da ciência. O ruído dessas falas já teve consequências dramáticas.”
Como exemplo, artigo cita o enfraquecimento da adesão ao isolamento social no Brasil.
Os checadores sublinham que “seguirão denunciando publicamente comportamentos irresponsáveis na divulgação ou na amplificação de discursos falsos sobre o coronavírus e a Covid-19.”
Veja a seguir a íntegra do texto:
Autoridades, parem de distorcer fatos
Duas batalhas estão sendo travadas no Brasil ao mesmo tempo: uma, na seara da medicina, contra a expansão do coronavírus, e outra contra a desinformação produzida por ele. Enquanto na linha de frente da primeira há milhares de aguerridos profissionais de saúde, na segunda, o exército é composto por um grupo dedicado mas ainda reduzido de checadores de fatos. Sem o apoio explícito e o comprometimento das autoridades com a verdade, o país corre o risco de perder a guerra contra os boatos sobre a Covid-19.
Desde 26 de fevereiro, quando o país registrou o primeiro caso de coronavírus, os fact-checkers brasileiros já identificaram mais de 100 informações falsas sobre a pandemia – mais de três por dia.
De acordo com dados da base internacional de checagens sobre o coronavírus mantida pela International Fact-Checking Network, Facebook, WhatsApp e Twitter são os canais mais utilizados para distribuir desinformação no Brasil, mas a lista completa é longa.
O que aflige os checadores é constatar que autoridades brasileiras, graças à influência de seus cargos, contribuem de forma expressiva para o avanço da desinformação. Desde o início da pandemia, políticos produziram, endossaram e compartilharam dados errados sobre vacinas, distanciamento social e a origem do novo coronavírus. Também usaram dados defasados e acabaram criando um ambiente de desconfiança econômica em que florescem golpes digitais.
Ao dar voz, espaço, pixels, imagens e caracteres a inverdades, as autoridades colocam em risco a vida dos brasileiros. Monitoramento feito pelos checadores mostra que, ao fazer ou compartilhar uma declaração falsa, autoridades têm conseguido inverter o sinal da mensagem ou inflar o que chega à população.
A hidroxicloroquina é um exemplo. Ao tratar como definitivos estudos ainda incipientes feitos com o medicamento, políticos o elevaram à condição de cura para a Covid-19. Não demorou para que a droga desaparecesse das farmácias, prejudicando os que, de fato, precisam dela, e expondo a efeitos colaterais os que a ingeriram em busca de proteção contra o novo coronavírus.
É urgente, portanto, que as autoridades tenham responsabilidade ao falar sobre a pandemia. Que se certifiquem de que o conteúdo a ser exposto tem base científica, é atual e se refere ao local sobre o qual estão falando. Que cessem já os discursos distorcidos, com contextos minimizados ou teses na contramão da ciência. O ruído dessas falas já teve consequências dramáticas.
No Irã, mais de 40 pessoas morreram envenenadas ao ingerir álcool puro para curar o coronavírus. No Reino Unido, torres de celular foram queimadas por quem acredita que a Covid-19 vem do sistema 5G de telefonia móvel. No Brasil, o isolamento social perde adesão ao ser atacado por autoridades que desconsideram o que é adotado mundo afora.
A transparência em relação ao que se sabe sobre a Covid-19 é inegociável. Cidadãos tomam decisões diárias com base nesses dados. Eles precisam ser atuais, fidedignos e acessíveis a todos.
Os checadores do Brasil ressaltam ainda que estão em contato permanente com as principais plataformas de tecnologia e redes sociais do mundo, em um esforço conjunto contra a desinformação. Seguirão denunciando publicamente comportamentos irresponsáveis na divulgação ou na amplificação de discursos falsos sobre o coronavírus e a Covid-19. Venham eles de autoridades ou não.
Agência Lupa (Natália Leal)
Aos Fatos (Tai Nalon)
Boatos.org (Edgard Matsuki)
E-farsas (Gilmar Lopes)
Estadão Verifica (Daniel Bramatti)
International Fact-Checking Network (Cristina Tardáguila)