Foto finalista é excluída do Prêmio Vladimir Herzog após grupo indígena reclamar direito de imagem

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Redação Portal IMPRENSA

O júri do Prêmio Vladimir Herzog de Jornalismo e Direitos Humanos excluiu a fotografia de Joédson Alves, da Agência EFE, dos trabalhos finalistas na categoria fotojornalismo, após a Hutukara Associação Yanomami (HAY) reclamar direito de imagem.

Crédito: Reprodução / Joédson Alves / EFE

A foto denominada “Culturas em Conflito” mostra um grupo de índios reunidos na mata enquanto uma índia analisa a máscara facial recebida por representantes do governo em visita ao local.

O júri do prêmio desqualificou o trabalho por 10 votos a 1, após discutir questões como liberdade de imprensa, ética jornalística e direitos dos povos indígenas. Apesar da decisão, a foto ganhou o mundo em publicações jornalísticas e nas redes sociais.

Em entrevista à LatAm Journalism Review, o fotógrafo Joédson Alves diz que foi colocado em uma posição de violador dos direitos humanos após a desclassificação. “Eu era os olhos da sociedade sobre a violação do governo, isso sim, aos povos indígenas”, disse.

“A foto foi inscrita num concurso sobre defesa dos direitos humanos porque julguei que a imagem fazia exatamente isso: onde estão os direitos humanos daquelas pessoas quando o máximo que o poder público acha que elas merecem é uma máscara simples, que não atende protocolos de certificação, e que não pode ser usada por aquele grupo?”, continuou.

O registro foi feito em julho durante uma missão das Forças Armadas em uma aldeia em Roraima. Além de Alves, estavam presentes jornalistas de outros veículos convidados.

Já na época, lideranças Yanomami reclamaram de não terem autorizado o trabalho dos jornalistas. “Não quero que pessoas estrangeiras só venham para tirar fotos dos meus filhos. As pessoas de longe tiraram fotos e levaram e não queremos isso. Não queremos ser propaganda do governo”, disse a liderança indígena Paraná Yanomami em um vídeo divulgado pela Rede Pró-Yanomami.

Alves diz que o líder indígena que estava no local pediu apenas para evitar fotos das crianças. O vice-presidente da HAY, Dario Vitório Kopenawa Yanomami, enviou uma carta ao Instituto Vladimir Herzog onde diz que “o registro, veiculação, e comercialização da imagem do povo Yanomami sem sua consulta e consentimento acaba por reproduzir estereótipos aos quais não queremos ser identificados”.

O júri que decidiu pela exclusão da foto foi formado por representantes da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Arquidiocese de São Paulo, Ordem dos Advogados do Brasil, e outras entidades.

Leonardo Medeiros, coordenador de comunicação da ONG Conectas Direitos Humanos, um dos jurados, defende que a entrada no território indígena deveria ter sido deliberada antes, com consentimento da população indígena, e refuta a ideia de que a decisão signifique censura: “Existe um grande desconhecimento entre os profissionais de imprensa de como tratar a questão indígena. Uma visão quase colonialista”.

Ricardo Carvalho, representando a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), único que votou contra a desclassificação, discorda de Medeiros. “Se for pedir autorização, acaba o flagrante, acaba a reportagem. Essa foto é um momento dramático da política indigenista do país em plena pandemia. O rosto da indígena parece representar tudo o que essas populações vivem sob o governo Bolsonaro”, declarou.

A exclusão da foto da premiação surpreendeu o júri que escolheu as finalistas. O fotógrafo Renatto D’Sousa ressaltou o valor jornalístico da imagem. “A foto fala mais do que o texto vai falar. A indígena olhando a máscara [e pensando], ‘o que é isso, como vou usar isso?’ O mundo viu a inadequação da política do governo para os indígenas”, disse à LatAm Journalism Review.

“Daqui a pouco, o general fala ‘não queremos’, o bispo fala ‘não queremos’. E aí não tem mais nada?”, criticou D’Sousa.

Diante do caso, o regulamento do Prêmio Vladimir Herzog poderá ter na próxima edição a exigência de autorização das pessoas retratadas, mas ainda há obstáculos para a medida. Em 2008, por exemplo, a foto vencedora mostra uma índia grávida, com uma criança no colo, sendo agredida pela PM do Amazonas.