Google discute futuro do jornalismo

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Dawn Garcia, diretora do John S. Knight Fellowships

Com representantes das plataformas de tecnologia e de alguns dos principais veículos latino-americanos, o Google realizou no final de semana em São Paulo o Newsgeist, evento para discutir o jornalismo hoje e daqui para a frente, buscando parcerias em projetos e novas ideias.

Pela primeira vez na América Latina, a “anticonferência”, com temas abertos e veto à divulgação de nomes e filiações dos participantes, se concentrou no tema das notícias falsas e no que plataformas e também organizações jornalísticas podem fazer para enfrentar o problema.

Outra vertente de discussão foram o êxito nos programas de “paywall”, as assinaturas digitais de jornal, e outras alternativas de financiamento como a busca de membros em vez de assinantes e os limites e oportunidades das doações filantrópicas.

Para Dawn Garcia, diretora do John S. Knight Fellowships -programa de bolsas para jornalistas da Universidade Stanford, na Califórnia- o Newsgeist refletiu a revalorização do jornalismo.

Seu programa em Stanford se concentra em inovação e ajudou a preparar três dos jornalistas da equipe do “Boston Globe” que revelou a extensão da pedofilia na Igreja Católica, tema de “Spotlight”, Oscar de filme em 2016. Ela foi repórter no “San Francisco Chronicle” e editora no “San Jose Mercury News”.

NOTÍCIAS FALSAS

Algumas boas ideias vieram à tona e podem ser mais desenvolvidas. Uma é o Projeto Credibilidade, financiado pelo Google e por Craig Newmark, do [site de classificados] Craigslist, mas que foi iniciado, antes mesmo de aparecer a expressão “fake news”, pela jornalista Sally Lehrman, que foi bolsista no nosso programa. A ideia é ter “sinais de credibilidade” nas notícias. O que podemos trazer num texto que sinalize para o leitor que se trata de uma matéria confiável? Entra tudo, começando pelo histórico do autor, se ele já escreveu sobre aquilo.

VEÍCULOS E PLATAFORMAS

Sobre os veículos, discutiu-se se eles podem rotular com mais clareza seus textos como notícia, opinião, análise. Existe muita confusão das pessoas. Sobre as plataformas, Google, Facebook, Twitter, eu acredito que elas estão começando a entender que têm um papel maior a representar na indústria de mídia. Elas não aceitam, mas já são mídia, até certo ponto. Elas não querem ser quem toma as decisões [editoriais], mas é preciso que se engajem mais, por exemplo, cortando o financiamento [via publicidade] dos produtores de notícias falsas.

NECESSIDADE

Muitas pessoas estão acordando para a necessidade do jornalismo numa democracia. Ao mesmo tempo, os jornalistas estão sob ataque, nos EUA com certeza, pelo nosso dito presidente [Donald Trump]. Existe agora uma compreensão maior do valor do jornalismo que cobra com precisão a prestação de contas [de governos, empresas, organizações]. Jornais como “New York Times” e “Washington Post” estão vendo crescimento de assinaturas, porque as pessoas estão querendo notícias validadas. E você percebe apoio, inclusive financeiro, para sites investigativos como ProPublica, que viram as suas doações dispararem. Não acho que seja algo que aconteceria por si só. As pessoas não se preocupam, tomam as coisas como garantidas, até sentir que podem perdê-las.

BOLHAS DE NOTÍCIAS

Olhando para o futuro, esse momento de desafio que estamos enfrentando impulsiona as pessoas a encontrar soluções, experimentar. Tanto no sentido de nos explicarmos melhor para os diversos públicos, como para oferecer a mão e vencer divisões, essas bolhas de notícias de que falamos [no Newsgeist]. Há alguns experimentos pequenos, que vejo como sinais de esperança. Um é o Spaceship Media, projeto em que eleitoras de Trump em Arkansas e de Hillary Clinton na Califórnia, em Berkeley, bem esquerdista, concordaram em conversar on-line. E agora elas querem se encontrar pessoalmente, para falar sobre o que têm em comum. Se o jornalismo puder ajudar as pessoas a respeitar umas às outras e a encontrar pontos de interesse comum, existe esperança para o jornalismo.

Fonte: Folha de S.Paulo