Hashtags estigmatizantes contra imprensa alcançam meio milhão de tweets, levantam RSF e ITS-Rio

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“Merda”, “safada”, “imbecil”, “canalha”, “vagabunda”, “puta”, “idiota” e “vaca” estiveram entre os termos depreciativos usados durante campanhas digitais articuladas para estigmatizar o trabalho de jornalistas. Ao mapear hashtags ofensivas à imprensa no Twitter entre março e junho de 2021, Repórteres Sem Fronteiras (RSF) e Instituto Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS-Rio) encontraram cerca de 500 mil tweets. Grandes grupos de comunicação, considerados críticos ao governo por seus apoiadores, e profissionais mulheres são alvos preferenciais, segundo relatório das entidades.

As entidades buscaram, com o auxílio de linguagem de programação, as seguintes hashtags:  “#imprensalixo”, “#extreamaimprensa”, “#globolixo”, “#cnnlixo” e “#estadãofake”. De acordo com o estudo, grupos de usuários que dão base de sustentação ao governo federal nas redes se engajaram mais durante as avalanches de ataques virtuais. Cerca de 20% do total foi publicado por contas com alta probabilidade de comportamento automatizado.

“Uma coisa que percebi é que esses ataques estão cada vez mais organizados e tomam uma proporção muito grande”, relatou à RSF a colunista da Folha de São Paulo, Mariliz Pereira Jorge – uma das profissionais de imprensa difamadas pelas campanhas virtuais.

“Não houve um só dia com menos de mil registros de ataques à imprensa”, alertam as entidades. As hashtags buscadas são acionadas diariamente. Os 498.693 tweets encontrados pelas entidades incluem tanto tweets nativos quanto retuítes (RTs) publicados por um total de 94.195 usuários, dos quais 3.600 seriam perfis com alta probabilidade de comportamento automatizado.

“A quantidade total de tweets mencionando jornalistas mulheres foi 13 vezes maior do que os direcionados a seus colegas homens”, apontam ITS-Rio e RSF. Os episódios de assédio atingiram, além de Mariliz Pereira (Folha de S.Paulo), Maju Coutinho (Globo), Daniela Lima e Pedro Duran (CNN Brasil), Rodrigo Menegat (DW News), entre outros profissionais.

Mais da metade (51%) dos tweets se concentraram em 13 dias de pico, o que sugere organização de quem se envolve nas campanhas, segundo o estudo.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) mostrou, em 03.set.2021, que o número de ataques virtuais a jornalistas mais do que dobrou nos oito primeiros meses deste ano (137), em relação ao mesmo período em 2020 (67). Nesta pesquisa, cada campanha massiva de assédio é contabilizada como um caso.

Foram considerados no levantamento discursos estigmatizantes, restrições na internet e ciberameaças, incluindo os vazamentos de dados pessoais, chamados de doxing. O caso — digno de repúdio — do jornalista Pedro Nakamura mostra como diversas formas de violência nos meios digitais podem se entrelaçar.

Em função de reportagem publicada no Matinal, onde trabalha, Nakamura teve conversas expostas por um médico implicado na investigação. O crime digital culminou em assédio virtual massivo nas redes sociais.

Bloqueados no Twitter

Trinta e oito políticos com mandato vigente ou autoridades de alto escalão da burocracia brasileira baniram 139 profissionais de imprensa no Twitter, conforme monitoramento da Abraji realizado desde setembro de 2020. São 267 bloqueios realizados por autoridades públicas, sendo 77 apenas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

A proibição de que o presidente Jair Bolsonaro bloqueie jornalistas em sua conta no Twitter foi requerida pela Abraji por meio de mandado de segurança coletivo protocolado no Supremo Tribunal Federal.

A ação chama atenção para o fato de que o presidente utiliza as redes sociais como canal de diálogo com a sociedade civil, divulgando ações do poder público como construção de obras, processos de desburocratização, monitoramento da pandemia de covid-19 e até mesmo a nomeação de ministros.

As petições da Abraji e da defesa do presidente foram encaminhadas à relatora do processo, a ministra Cármen Lúcia, que ainda não julgou o mérito.

O projeto da Abraji que acompanha os bloqueios na rede tem financiamento da Open Society Foundations. A pesquisa diária mostrou quais autoridades mais barram jornalistas e veículos e que a estratégia de negar acesso à sua conta a um jornalista, além de dificultar o trabalho de apuração, pode configurar ato discriminatório.

A Human Rights Watch, entidade internacional em defesa dos direitos humanos, considera a prática uma violação ao direito de acesso à informação. A organização identificou 176 contas de jornalistas, veículos de imprensa, influenciadores e ONGs bloqueadas, a grande maioria no Twitter.

“O presidente Jair Bolsonaro está tentando eliminar de suas contas pessoas e instituições que dele discordam para transformá-las em espaços onde apenas aplausos são permitidos. É parte de um esforço mais amplo para silenciar ou marginalizar os críticos”, declarou a diretora da Human Rights Watch no Brasil, Maria Laura Canineu, quando o estudo foi publicado.

Foto de capa: Unsplash