Jornalista de Cuiabá deixa Mato Grosso após ameaça

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O jornalista Alexandre Aprá, fundador do site independente Isso É Notícia, de Cuiabá, deixou o Mato Grosso depois de receber mensagens ameaçadoras devido a seu trabalho. Segundo o repórter, há um plano para difamá-lo e incriminá-lo por conta de reportagens publicadas em seu blog sobre um suposto esquema de corrupção no governo estadual.

Antes de deixar o Estado por temer por sua integridade física, Aprá procurou a Polícia Federal em Cuiabá, no dia 03.set.2021, e apresentou uma notícia-crime. Segundo depoimento prestado à PF, desde 2013 o blog Isso É Notícia vem publicando reportagens sobre gastos do Executivo mato-grossense com publicidade. As matérias citam suspeitas de irregularidades que envolveriam o governador Mauro Mendes (DEM), a primeira-dama Virgínia Mendes e a empresa de Ziad Fares, a ZF Comunicação, uma das quatro agências contratadas pelo Estado com dispensa de licitação.

À Polícia Federal, o jornalista afirmou ter sido informado por colegas de que o site precisaria parar de publicar as reportagens. No mesmo depoimento, Aprá disse ter sido avisado por um amigo de que o detetive particular Ivancury Barbosa teria sido contratado para incriminá-lo por tráfico de drogas e abuso sexual de menores. Os patrocinadores desta investigação seriam, supostamente, o próprio governador, a primeira-dama e o publicitário Ziad Fares.

Aprá admitiu ter usado um amigo para se aproximar do detetive e, assim, poder colher informações paralelas. “Eu sabia que a falta de provas e a influência do governo em várias instâncias do poder estadual, como Polícia Civil e MP, impediriam uma apuração independente. Apelei a essa estratégia para salvar minha vida, tive que agir e um amigo se fez passar por meu inimigo”, explicou à Abraji.

Em uma das mensagens, o detetive deixa claro ter sido procurado para obter provas contra o jornalista:

“Você esculacha todo mundo nos jornais, você gosta de fazer isso […] Nenhum detetive foi contratado para te matar, para fazer nada com você, só para pegar que você usa cocaína, certo? […] Nesta sorte, deu certo também que eu achei mais uns quatro traficantes que fala (sic) sempre com você direto, traficante, que você é ligado. Então eu acho que era bom você ficar meio quieto com isso aí […] Ninguém vai fazer nada de mal com você não, agora você também não vai continuar com este jornalzinho marrom seu aí esculachando todo mundo […] Eu acho que você é um cara inteligente, acho que você vai parar com isso […] Ninguém tá com medo de você não. Você sai como moleque e é pedófilo. Eu descobri tudo isso…”

Citados negam acusações do jornalista

um site local de notícias, o detetive negou ter intenção de matar Alexandre Aprá. Ivancury Barbosa reconheceu ter sido contratado para investigar o jornalista, mas não revelou quem o financiou. Ao mesmo site, negou que Ziad Fares, o governador Mauro Mendes e a primeira-dama Virgínia Mendes tenham  contratado seus serviços.

Ziad Fares também foi ouvido pelo site local. Por meio de seu advogado, afirmou que a denúncia feita por Aprá “não corresponde com a verdade” e que não contratou Barbosa para a investigação. Até esta quinta-feira (9.set.2021), a Abraji não havia conseguido contatar o publicitário para confirmar sua versão.

Procurada pela Abraji, a PF informou que a notícia-crime foi recebida e  “encontra-se pendente de análise e parecer pela Corregedoria Regional”.  A Secretaria de Comunicação do Governo de Mato Grosso também foi acionada, mas tampouco havia se manifestado a respeito.

Alexandre Aprá disse à Abraji que se encontra em local não identificado, enquanto aguarda a apuração da denúncia. Ele afirma ter encaminhado um pedido ao MPF para ser enquadrado no Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas do governo federal.

Programa de Proteção Legal para Jornalistas

Alexandre Aprá foi um dos jornalistas acolhidos pelo Programa de Proteção Legal para Jornalistas, da Abraji. Ele é alvo de diversos processos movidos por pessoas ligadas ao grupo político do governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (DEM). Há oito anos, o jornalista vem produzindo reportagens que sinalizam suspeitas de corrupção. Já enfrentou a Justiça para fazer valer a Lei de Acesso à Informação e chegou a ser agredido fisicamente em 2015.