Jornalista é exonerado pela Polícia Rodoviária PR por matéria veiculada no Bom Dia Brasil

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Jornalista é exonerado pela Polícia Rodoviária PR por matéria veiculada no Bom Dia Brasil

Série de fatos no atendimento à imprensa termina em perda de chefia do setor de comunicação da autarquia rodoviária federal, em Curitiba

O relacionamento entre Fernando Oliveira, policial concursado e bacharel em jornalismo, atuando como chefe da assessoria de imprensa da PRF/PR, e a imprensa foi a origem e causa de punição por ter atendido à equipe de reportagem da RPCTV, emissora líder do Paraná, e afiliada à Rede Globo. Embora a operação fosse rotineira, apoiada inclusive em release distribuído a toda a imprensa, o fato gerador do imbróglio deve-se ao modus operandi das afiliadas que disponibilizam suas matérias classificadas de nacional para o jornalismo da Globo e ela veicula ou não. Aconteceu que em maio, a Rede Globo veiculou a matéria no Bom Dia Brasil produzida por sua afiliada e que reportava o crescimento dos acidentes nas rodovias federais do Paraná.

Crédito: Divulgação/PRF Paraná

Na mesma manhã, o assessor foi advertido que a matéria estava fora do alinhamento com a política do presidente Bolsonaro, contrário aos radares nas estradas e ao isolamento social instituído pelos governadores e prefeitos no combate à pandemia da covid-19. A exoneração foi formalizada dias depois.

A sucessão dos fatos trama com a teoria da conspiração potencializada pela natureza do serviço público que considera a PRF como órgão de estado e não de governo.

Coube à BBC BRASIL a suíte da matéria veiculada pela Globo e depois repercutida pelos sites do Estado de Minas e da revista Época. A matéria da BBC foi assinada pela jornalista Mariana Schreiber, da sucursal da BBC News BRASIL, de Brasília. O texto é cirúrgico pois detalha o making off do imbróglio. O clima é de conspiração. Quem lê a matéria pode imaginar o fio da navalha que enfrentam os assessores de imprensa, no 2º e 3º escalão da burocracia governamental para entregar informações com objetividade e dados reais para divulgação.

Crédito:Reprodução

Algumas observações na linha do mediawatcher sobre o episódio acima.

Primeiro, o desafio maior do assessor de imprensa junto ao repórter, a quem ele passa a notícia, é nunca mentir. Quanto mais claro for e mais documentação apresentar, melhor e mais eficiente estará sendo. Na matéria da PRF/PR, os repórteres foram levados a uma operação presencial que estava sendo feita em vários estados brasileiros, para registrar o entendimento dos protagonistas do trânsito rodoviários, os motoristas e os fiscais cuja eficiência era objeto das gravações para a tevê. É tudo o que o repórter quer. É quando ele é o intermediário direto da notícia junto ao consumidor de mídia. O grau de ascendência do assessor sobre o repórter aí é quase zero. Donde a punição ao funcionário é injusta e até um diploma de profissionalismo.

Segundo, a constatação do crescimento de acidentes de trânsito nas rodovias pelo grau insuficiente de isolação social para controlar a pandemia é um fato que não pode ser negado à sociedade. Bolsonaro perdeu na justiça o contencioso pela volta dos radares nas rodovias. A questão da velocidade do trânsito faz parte da legislação da maioria dos países, zelosos da letalidade que os condutores infringentes provocam. Só políticas de educação do trânsito resolvem um transporte civilizado.

Terceiro, a repórter que assina a matéria, traz ainda um fato da maior importância: a ordem dada a Fernando Oliveira, momento após a veiculação da matéria no Bom Dia Brasil de destruir um arquivo com mais de 9000 imagens  sobre o trânsito rodoviário do Paraná. Ele negou-se a cumpri-la pois a considerou “ilegal”. Mariana Schreiber ilustrou a matéria com fotos desse arquivo.

Em tempo: Um detalhe, Fernando Oliveira foi indicação de Sergio Moro para o cargo de chefia da PRF do Paraná.

Essa reportagem ainda vai suscitar muito debate no Brasil. Aguardemos as suítes jurídicas, nas mídias tradicionais e os posts venenosos nas mídias sociais.