Jornalistas apontam caminhos para mudar ‘visão colonizadora’ sobre a região amazônica

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Jornalistas apontam caminhos para mudar ‘visão colonizadora’ sobre a região amazônica

Foto: Marcello Casal Jr. / Agência Brasil

Mayara Paixão

Jornalistas especializados na cobertura da Amazônia na América do Sul criticaram o que chamam de olhar colonizador e etnocêntrico do jornalismo sobre as realidades amazônicas. Humildade, empatia com as populações locais e trabalho colaborativo são algumas das chaves apontadas para que profissionais e empresas de mídia expandam a cobertura de qualidade e a fiscalização na região.

O webinar “Os desafios de cobrir a Amazônia em tempos de pandemia” foi realizado pela Abraji e pelo Amazon Rainforest Journalism Fund nesta sexta-feira (5.jun.2020), para marcar o Dia Mundial do Meio Ambiente que, em 2020, tem como tema a biodiversidade.

:: Assista à íntegra do debate ::

“A Amazônia não é a marginalidade, e sim o centro de um problema de emergência climática de escala mundial. Se não transformarmos essa visão para os nossos leitores, a pandemia terá sido um escândalo com o qual não aprendemos nada”, enfatizou o colombiano Camilo Jiménez Santofimio, membro do comitê de seleção de projetos do Amazon RJF.

Elaíze Farias, cofundadora da agência Amazônia Real, criticou o apagamento histórico da região das pautas prioritárias do jornalismo. “Há um olhar etnocêntrico, que só se preocupa com o que acontece na região Norte, quando as consequências chegam ao Sul do país”, disse. Como exemplo, lembrou as nuvens de fumaça que tomaram o céu de São Paulo no dia 19.ago.2019. “A repercussão nacional e global daquele episódio começou quando a nuvem negra chegou a São Paulo, mas Manaus já vivia sob fumaça havia dias”.

A radialista Mara Régia, apresentadora do programa Natureza Viva, parafraseou Milton Nascimento em Notícias do Brasil ao concordar que os povos e as culturas da região são alvo de xenofobia, e que o jornalismo é uma ferramenta para mudar isso: “A novidade é que o Brasil não é só litoral (…) É muito mais do que qualquer zona sul”.

A pandemia

Segundo os jornalistas, os desafios de reportar os territórios amazônicos ganharam novos contornos com a pandemia. Mara Régia afirmou que, além de dificuldades já existentes, como a logística, a distância territorial e a língua — parte da Amazônia está na região tríplice fronteira de Brasil-Colômbia-Peru onde, além do espanhol e do português, devem-se considerar as línguas indígenas —, o contato com comunicadores e lideranças comunitárias, que ajudam na apuração, está mais difícil.

“Recentemente fiquei sabendo de um caso de escalpelamento [perda do couro cabeludo que, na região da Amazônia, ocorre normalmente em acidentes com motores de barcos] na Ilha de Marajó (PA), de uma jovem de 20 anos. Acionei as lideranças comunitárias, que também não puderam ajudar, já que precisam ficar em casa para se prevenir da covid-19”, relatou.

Elaíze Farias afirmou que outros problemas são a ausência de informação institucional e a desatualização de dados oficiais. “Sabemos que há casos suspeitos de covid-19 em muitas aldeias, mas não há testes. Quem é que infecta essas populações? São os garimpeiros invasores? Os agentes de saúde? (…) Não há um plano emergencial do governo para cuidar dessas populações, que se veem obrigadas a desenvolver iniciativas por conta própria”, disse.

A cofundadora e editora da Amazônia Real criticou a divulgação dos boletins epidemiológicos da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) que, segundo ela, são desatualizados e de difícil compreensão para quem não conhece os DSEIs (Distritos Sanitários Especiais Indígenas). Pontuou ainda a dificuldade de obter informações com a Funai (Fundação Nacional do Índio). Monitoramento da Abraji, do Fiquem Sabendo e da Transparência Brasil mostrou que o órgão nunca teve um Plano de Dados Abertos, obrigatório desde 2016.

:: Monitor de Dados Socioambientais indica falta de informações atualizadas ::

Neste Dia Mundial do Meio Ambiente, ao lado de outros 17 veículos do jornalismo ambiental, a Amazônia Real divulgou a carta aberta “Onde se planta jornalismo, floresce democracia”, em repúdio à atuação do governo Bolsonaro e do ministro Ricardo Salles na gestão das políticas ambientais. O texto enfatiza que as mídias ambientais estarão vigilantes com a terra e a biodiversidade.

Assim como as jornalistas brasileiras, Camilo Jiménez caracterizou a situação da Amazônia colombiana como crítica. Segundo dados trazidos ao webinar, a floresta ocupa 40% do território do país e possui 52 povos indígenas. “A dimensão territorial é enorme, mas a abrangência social é muito pequena”, descreveu, ao afirmar que há um abandono histórico do governo em relação ao território.

Com a pandemia, diz o colombiano, a situação se agravou. A escassez de hospitais e leitos na região, o desamparo das autoridades e a pouca visibilidade na mídia podem aprofundar as consequências. “Com a covid-19, nossa preocupação é que se rompam os tecidos sociais que vinham sendo reconstruídos após a violência política e do crime organizado. As pessoas terão que voltar a lutar pela sobrevivência, mas, se isso não for por meio da confiança em instituições, será por vias informais, e uma delas é o desmatamento ilegal”, explica.

Fortalecer o jornalismo

Repensar e fortalecer o jornalismo são caminhos apontados pelos palestrantes para ampliar os debates sobre a Amazônia. Mara Régia reafirmou o papel da comunicação pública. “Poucas emissoras se dispõem a essa cobertura, e uma empresa pública não se dá ao luxo de cobrir apenas os processos de espetacularização da notícia, ela acompanha o tema também em outros momentos”, disse, em referência à Empresa Brasil de Comunicação (EBC), pela qual o Natureza Viva é retransmitido. “Que esse canal se expanda, não sofra descontinuidade, nem censura”, completou.

Elaíze Farias pontuou que é importante que as vozes das populações tradicionais tenham destaque. “É preciso ouvir todos os lados, como manda o bom jornalismo, mas também dar maior visibilidade a quem, durante anos, teve espaço desigual na cobertura da mídia”.

O webinar teve ainda mediação de Kátia Brembatti, repórter na Gazeta do Povo e diretora da Abraji.

Oportunidade

O Amazon RJF aproveitou o evento para fazer uma chamada para seu mais recente edital, que está recebendo propostas até 20.jun.2020. A iniciativa dará bolsas para projetos digitais e colaborativos, cujas coberturas relacionem a pandemia de covid-19, os conflitos de terra, o desmatamento e outras questões críticas na Amazônia. Confira mais detalhes aqui.

“A covid-19 implica uma emergência de saúde e de pobreza, temas já críticos na Amazônia”, explica Camilo Jiménez. De acordo com o membro do comitê de seleção de projetos do Amazon RJF, a ideia é fortalecer propostas de jornalismo local que estejam conectados em redes nacionais e internacionais, entre os países pelos quais se estende a floresta amazônica.