Mais de 70% dos comunicadores que sofreram violação em 2017 já tinham sido ameaçados ou atacados, aponta ONG

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Relatório da Artigo 19 mostra que agentes públicos foram responsáveis pela maioria das ameaças e tentativas de homicídio.

José Marques
SÃO PAULO

Conhecido por publicar textos sobre crimes na cidade de Morada Nova (CE), o blogueiro Francisco José Rodrigues foi morto a tiros ao sair de casa da mãe, no ano passado, e ser abordado por dois homens em uma motocicleta.

Franzé, como era conhecido, já havia sido alvo de uma tentativa de assassinato em 2011, quando trabalhava como radialista.

Ele é um dos dois comunicadores que morreram no ano passado sob suspeita de assassinatos relacionados ao exercício da profissão, aponta relatório divulgado pela ONG Artigo 19 nesta quinta (3).
Como Franzé, 73% dos jornalistas, radialistas e blogueiros que sofreram algum tipo de violação em 2017 já haviam sido ameaçados ou atacados antes, segundo a entidade.

Além de homicídios, são listadas ameaças de morte e tentativas de assassinato em cidades de todo o Brasil.

Flores e velas deixadas em memória da jornalista Daphne Caruana Galizia

Flores e velas deixadas em memória da jornalista Daphne Caruana Galizia, morta durante ataque com carro bomba em Valletta, Malta – Darrin Zammit – 19.out.2017/Reuters

Apesar dos dois casos com morte listados pela ONG serem relacionados a reportagens da área policial, foram agentes públicos, como políticos, os responsáveis pela maioria das ameaças e tentativas de homicídio contra os comunicadores no ano passado.

Esse padrão vem se repetindo ao menos nos últimos seis anos, segundo os relatórios da Artigo 19, entidade que defende a liberdade de expressão.

No geral, houve uma leve diminuição nos números das violações contra os comunicadores em relação a 2016.

Há dois anos, foram identificados quatro homicídios, 22 ameaças de morte e 5 tentativas de assassinato.

No ano passado, caíram para dois assassinatos, 21 ameaças de morte e quatro tentativas de assassinatos.

As quatro ameaças de morte ocorreram por denúncias feitas pelos comunicadores à administração pública local.

Cerca de metade dos casos de 2017 aconteceram na área que a entidade chama de “deserto de notícias”: 4.500 municípios sem veículo jornalístico impresso ou online. A expressão foi criada pelos institutos Projor e ao VoltDataLab.

Esses municípios abrigam 35% da população brasileira. Por isso, o relatório pontua que os números podem estar subnotificados nessas regiões, já que há pouca notícia sobre fatos que aconteceram nos locais.

Os casos também demoram de serem resolvidos, segundo a ONG devido à “completa falta de transparência das autoridades policiais sobre o andamento das investigações e os esforços gerais para solucionar os casos”.

Os problemas apontados não são só de descaso dos investigadores, mas também de ordem prática: “Entre os casos de 2017, houve situação em que o comunicador não pode dar continuidade ao processo, depois de registrada a ocorrência de ameaça de morte, pois teria que se locomover até outra cidade para tal.”

A maioria dos casos de violações levantados no relatório aconteceram no Nordeste, com 56% dos casos identificados, seguido pelo Sudeste, com 22%.

O estado do Ceará, onde ocorreram as duas mortes, é o mais violento. Além de Franzé, morreu o blogueiro Luís Gustavo da Silva, de Alquiraz, na porta de sua casa.

Foram apurados outros nove casos de assassinato para o relatório, mas a entidade não conseguiu encontrar relação com a atuação da vítima na área de comunicação.

Depois do Ceará, São Paulo é o segundo estado onde foram identificados mais casos de violações, com quatro ameaças de morte e uma tentativa de assassinato, entre eles o jornalista Fernando Oliveira, o Fefito, colunista do Agora, jornal do Grupo Folha.

Ele recebeu um email que o ameaçava de morte por ser gay. “Sendo comunicador, Fernando é também uma figura pública, o que amplia a visibilidade não apenas de seu trabalho, mas de sua pessoa. Assim, a ameaça a ele é indissociável de seu trabalho”, diz o relatório, que cita o caso como emblemático.