O berço das águas: restauração no Cerrado aumenta em 79% retenção do solo e alimenta o Pantanal

Por José Câmara, g1 MS

A restauração de áreas degradadas no Cerrado pode ajudar a conservar a água que abastece o Pantanal. Um levantamento do WWF-Brasil obtido com exclusividade pelo g1 identificou que áreas em processo de recuperação há três anos retiveram 79% mais solo. O estudo também apontou aumento de 44% na infiltração de água.

O estudo foi realizado entre 2022 e setembro de 2026, em 85 municípios e 16 sub-bacias hidrográficas na faixa de transição entre o Cerrado e o Pantanal. O trabalho foi dividido em duas fases:

🌱primeiro, pesquisadores fizeram o planejamento e o diagnóstico das áreas prioritárias;

🌎depois, passaram à execução de ações de restauração, conservação do solo e assistência técnica a produtores rurais.

Para medir a retenção do solo, os pesquisadores realizaram ensaios experimentais de campo com simuladores de chuva. Os equipamentos aplicaram precipitação controlada sobre parcelas delimitadas de terreno, permitindo comparar o volume de sedimentos carregados pela água em áreas de solo exposto e degradado com o de áreas que estavam havia três anos em processo de regeneração vegetal.

➡️ A medição indicou que as áreas em restauração conseguiram reter 79% mais terra do que as áreas de solo exposto. A vegetação e a palhada amortecem o impacto das gotas de chuva sobre o terreno e reduzem a velocidade do escoamento superficial. Com isso, dificultam que a camada fértil seja carregada para os rios e provoque assoreamento.

➡️➡️Já o aumento de 44% na infiltração indica que a água da chuva consegue penetrar mais no solo, em vez de escoar rapidamente pela superfície. Esse processo contribui para a recarga das águas subterrâneas e para a manutenção dos cursos d’água.

Infográfico mostra dados de pesquisa envolvendo Cerrado e Pantanal. — Foto: Informações: g1 MS/ Produção: IA

Infográfico mostra dados de pesquisa envolvendo Cerrado e Pantanal. — Foto: Informações: g1 MS/ Produção: IA

As árvores que ajudam as cabeceiras do Pantanal

Nereu Rios é viveirista em Mato Grosso do Sul. — Foto: Arquivo pessoal/Reprodução

Nereu Rios é viveirista em Mato Grosso do Sul. — Foto: Arquivo pessoal/Reprodução

O trabalho de restauração, no entanto, não ocorre apenas nos estudos e nos números. Em Mato Grosso do Sul, o viveirista Nereu Rios, de 68 anos, dedica mais de quatro décadas à recuperação da vegetação.

Nascido em Dourados, ele guarda na memória a derrubada de grandes matas de peroba-rosa e ervais da região durante a expansão agropecuária, nos anos 1970. Daquela lembrança surgiu um compromisso: devolver a vegetação nativa à terra.

“Quando vim para Campo Grande, ainda menino, entendi que cuidar de plantas e recuperar a vegetação era a minha missão. Tá no DNA”, relembrou Nereu.

Ao longo da carreira, Nereu plantou mais de 2 milhões de árvores. Para coletar sementes de espécies nativas, percorre anualmente, entre agosto e setembro, até 7 mil quilômetros por estradas de Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Bahia e Minas Gerais.

Expedição para coleta de sementes no Cerrado. — Foto: Nereu Rios/Arquivo pessoal

Expedição para coleta de sementes no Cerrado. — Foto: Nereu Rios/Arquivo pessoal

A coleta abastece projetos de restauração e ajuda a manter a diversidade genética das áreas recuperadas. O trabalho também movimenta a economia de comunidades locais: uma rede de sementes comunitárias ligada à atividade já gerou cerca de R$ 11 milhões em renda para aproximadamente 800 coletores de assentamentos, territórios quilombolas e comunidades tradicionais, segundo os levantamentos do viveirista.

Há 16 anos, a experiência de Nereu ganhou escala no Viveiro Isaac de Oliveira, mantido em Campo Grande em parceria com a concessionária Águas Guariroba. O espaço tem capacidade para produzir cerca de 90 mil mudas por ano de 85 espécies do Cerrado, entre elas ipê-roxo, tarumã, jacarandá e manduvi.

O gerente de meio ambiente da Regional da Aegea, Fernando Garayo, explica que a escolha das espécies precisa considerar as características de cada área a ser recuperada.

“Não basta plantar árvores: é preciso selecionar espécies adequadas para cada ambiente, respeitando as características do Cerrado e as particularidades de cada área. Em margens de rios e nascentes, priorizamos plantas compatíveis com a umidade; em solos mais secos, espécies resistentes à estiagem. A diversidade é fundamental para aproximar a área recuperada do ecossistema original. E o trabalho não termina quando a muda vai para o chão: a restauração exige monitoramento contínuo para que a vegetação cumpra sua função de proteger a água”, explica Garayo.

Viveiro em Campo Grande. — Foto: Reprodução

Viveiro em Campo Grande. — Foto: Reprodução

O viveiro também tem uma dimensão social. A produção de mudas conta com a participação de reeducandos do Centro de Integração Social da Gameleira, que recebem salário, alimentação, remição de pena e capacitação profissional em restauração florestal.

Para Nereu, o trabalho de plantar árvores representa uma contribuição que se constrói aos poucos, mas que pode transformar a paisagem.

“Isso me lembra da história do beija-flor tentando apagar a floresta. A floresta pegando fogo e o beija-flor ia lá com o biquinho jogar umas gotinhas de água tentando apagar a floresta e o leão falando pra ele que não adiantava… É uma coisa irrisória, mas a gente vai mudando”, reflete o viveirista.

O Cerrado que mantém o Pantanal vivo

Biólogo ficou cerca de uma hora acompanhando os passos da onça no Pantanal — Foto: Gustavo Figueirôa/Arquivo Pessoal

Biólogo ficou cerca de uma hora acompanhando os passos da onça no Pantanal — Foto: Gustavo Figueirôa/Arquivo Pessoal

A relação entre os dois biomas começa na geografia. O Cerrado ocupa áreas de planalto onde estão nascentes que alimentam rios importantes para a planície pantaneira. Segundo o biólogo Gustavo Figueirôa, do SOS Pantanal, cerca de 80% da água e dos sedimentos que sustentam o Pantanal têm origem nas cabeceiras do planalto.

Figueirôa explica que quase não existem nascentes no interior da planície. Por isso, o funcionamento do Pantanal depende também da conservação das áreas de cabeceira e da vegetação nativa que protege o solo.

“Quando você preserva o Planalto, recupera as nascentes, permite que a água da chuva seja absorvida, entre no lençol freático e escorra de forma cadenciada para o sistema. O Pantanal depende diretamente da água que nasce no Cerrado para manter seu ecossistema. Às vezes não conectamos o Pantanal a outros biomas de forma instintiva, mas ele está intrinsecamente ligado à saúde de seus vizinhos”, destaca Gustavo.

A vegetação nativa funciona como uma espécie de esponja natural. Além de favorecer a infiltração da água, protege o solo contra o impacto da chuva. Quando essa cobertura é retirada, a água tende a escoar com mais velocidade, carregando sedimentos para os rios.

O processo pode agravar o assoreamento de cursos d’água importantes para a planície, como o rio Taquari.