Pesquisa aponta desafios para aproximar jornalismo do público jovem e combater fake news

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Deborah Freire*

A cada 10 jovens adultos brasileiros com até 34 anos, ao menos oito estão interessados em consumir notícias. Mas por que esse público parece cada vez mais distante dos veículos tradicionais de comunicação?

Crédito:Reprodução / YouTube

Os dados da pesquisa “Hábitos de Mídia do Brasileiro”, realizada entre 14 e 18 de maio, com 1.242 entrevistados por celular em todo o território nacional, foram discutidos durante o segundo debate do Mídia.JOR – Futuras Gerações 2021, realizado pela Revista e Portal IMPRENSA, em parceria com a TV Cultura e o Instituto Ideia, e transmitido nessa segunda (7).

Para o fundador do Ideia, Maurício Moura, o que ficou perceptível nas entrevistas é que o jornalismo precisa ainda enfrentar muitos desafios para quebrar as barreiras entre a notícia e o público, e permitir maior entrada de conteúdo entre os jovens.

Os desafios passam pelo uso das plataformas, apuração e formato do conteúdo, disseminação e entrega e credibilidade, ele reforça.

Quanto à plataforma, o pesquisador afirma que as entrevistas demonstram que os conteúdos, mesmo os produzidos para a TV ou para o computador, são cada vez mais vistos pelo celular. Hoje a TV ocupa o primeiro lugar em audiência, mas o público vem migrando para os aparelhos móveis.

Isso corrobora outro dado da pesquisa apresentado pelo mediador do Mídia.JOR no debate, Leão Serva, diretor de jornalismo da TV Cultura, de que a televisão continua sendo o meio mais importante de informação para os brasileiros, mas os meios digitais somados já ocupam o segundo lugar, abrangendo diversas plataformas digitais.

“Conforme a penetração do celular venha aumentando, e vem muito rápido comparado com outras tecnologias, o resto é derivado e vai ser cada vez mais. Se eu fosse jornalista, eu produziria conteúdo que possa ser consumido pelo celular”, considerou Moura.

Notícias falsas

O grande e maior desafio atual, as notícias falsas, também foi tema de questionamentos na pesquisa feita pelo Instituto Ideia. Ela apontou que o Whatsapp tem grande penetração não só entre os jovens, mas principalmente entre os mais velhos, por ser simples, gratuito e fácil de compartilhar notícias.

E é daí que surge uma preocupação: a capacidade de disseminação de conteúdo nessa plataforma é monstruosa, segundo classificou Maurício Moura, mas os grupos do Whatsapp refletem um “viés de seleção”: as pessoas recebem aquilo que acreditam e, por isso, compartilham.

“As plataformas não descobriram formas de criar intersecções. A pesquisa mostra que quase 20% dos entrevistados compartilham sempre o que recebem, ou seja, se tem conteúdo no aplicativo, ele vai ser compartilhado”, revelou.

Por isso, para o curador do debate, Lúcio Mesquita, o desafio para os veículos mais tradicionais é achar uma forma de chegar até as pessoas antes das notícias falsas e maliciosas. “Hoje, o Whatsapp é o maior inimigo do jornalismo de qualidade”, afirma.

Nessa linha, o UOL tem investido em projetos voltados especificamente para difundir notícias nas redes sociais. Além do Twitter e Instagram, já explorados, o portal teve dois projetos para o TikTok no ano passado, durante as eleições e durante o Enem.

Ananda Portela, jornalista redatora de redes sociais do UOL, relembra que a equipe explicou na rede social como funciona a campanha eleitoral, o que é uma candidatura laranja e o que é um mandato coletivo. E no Enem, foram elaborados materiais sobre o que levar para a prova, por exemplo.

Todo o trabalho foi feito com uma “pegada” jovem, mas com muita apuração por trás, que é o que vai garantir a credibilidade do jornalismo também nessas plataformas.

Roberta Camargo, do Canal Reload e repórter do Alma Preta, reforça que fazer conteúdo para a internet não deixa de ser um trabalho sério e embasado, mesmo com apresentação mais leve e atrativa.

“A complexidade se dá primeiro em trazer a credibilidade, assumir que você tem compromisso com a notícia, com fontes especialistas, que podem falar daquilo com propriedade, e aí a gente pode bater diretamente com as fake news. Tudo tem um processo. Às vezes, para fazer um post você demora três dias, porque precisa conversar com as pessoas certas, obter os dados certos”, reforça.

Identificação do público

Outro ponto do debate foi a busca pela identificação do público com o jornalismo produzido. Para Roberta Camargo, o jornalista precisa desconstruir a ideia de autoridade e passar a “conversar” com o público e entender as diferentes realidades.

“É importante que o público se veja e se identifique, e que o jornalista passe a ideia de cidadão que exerce o direito de informar, para que as pessoas pensem ‘faz parte da minha realidade, eu consigo entender’”, defende.

Caê Vasconcelos, repórter especialista na cobertura de LGBT+, reforça que há necessidade de o jornalista enxergar a pluralidade de públicos, mesmo entre grupos já considerados diversos. “Quando falamos de jovens, é negro, lésbica, gays, trans, travestis, índios, brancos, cada um com sua visão de mundo. Por isso é importante pensar as individualidades para ver se a gente consegue falar minimamente com todas essas pessoas”, afirma.

Política e jornalismo

A pesquisa perguntou ainda para os grupos autodeclarados extrema esquerda e extrema direita qual o interesse deles em consumo de mídia e a resposta mostrou que são os mais interessados.

No entanto, eles se dizem muito preocupados com as “fake news” vindas de jornalistas. Maurício Moura explicou o que eles querem dizer com tal afirmação.

“Quem acha que o jornalismo tradicional faz fake news acha que a notícia não necessariamente é falsa, mas é feita para prejudicar determinado político ou líder. A Daniella Lima, da CNN, foi atacada semana passada, e as pessoas não discutiam se o dado que ela tinha falado era falso ou não, mas se ela tinha uma intenção em prejudicar o Bolsonaro ou o governo”, explana.

Para ele, a batalha do jornalismo com as fake news deve ficar pior, com a invasão das deep fakes, que são imagens feitas por inteligência artificial que reproduzem a pessoa falando sobre determinado assunto. A solução, ele destaca, é difícil e a longo prazo: educação.

Assista ao debate completo: