Relações entre lobby, advocacy e jornalismo investigativo são destaque em curso da Abraji

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Relações entre lobby, advocacy e jornalismo investigativo são destaque em curso da Abraji

Redação Portal IMPRENSA

Empregado para designar o conjunto de mobilizações e estratégias destinadas a realizar mudanças positivas em leis, padrões comportamentais e na sociedade em geral, o termo advocacy será um dos destaques do curso “Jornalismo, Covid-19 e Corrupção”, promovido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) no dia 6 de outubro.
O tema ficará a cargo de Daniela Castro, diretora executiva da Impacta Advocacy e  autora do livro “Advocacy: como a sociedade pode influenciar os rumos do Brasil”.
Na aula “Lobby e a captura das decisões políticas”, Daniela abordará as relações entre jornalismo investigativo, lobby, advocacy e mudanças sociais.
Na entrevista a seguir, concedida por email ao Portal IMPRENSA, Daniela explica um pouco mais sobre o tema advocacy e sua importância no contexto do jornalismo investigativo e do combate à corrupção.
Autora de livro sobre o tema, Daniela Castro dará aula sobre advocay e lobby em curso da Abraji
Portal IMPRENSA – Entre os leigos e a população em geral, existe uma espécie de demonização do lobby. Por que isso ocorre e qual a importância dessa atividade?
Daniela Castro – A má reputação do lobby é uma questão cultural. Infelizmente, o termo ganhou conotação negativa no Brasil, sendo associado a uma ação prejudicial à sociedade. Mas o ato de influenciar tomadores de decisões políticas em favor de um determinado interesse é legítimo numa democracia, desde que realizado dentro de valores éticos e republicanos. Não pode haver pagamento de propinas, retribuições ou outros métodos ilícitos. O lobbying, ou seja, o ato de se fazer lobby, pode ter protocolos de conduta mais claros para quem exerce mandatos ou cargos públicos Em todo o caso, o lobbying é um ato legítimo da sociedade civil e uma das ferramentas que podem ser utilizadas numa estratégia de Advocacy, ajudando uma ação organizada da sociedade civil em prol de uma mudança. Muitas leis importantes ao país, inclusive de combate à corrupção, derivaram de ações de Advocacy que envolveram lobbying.
Portal IMPRENSA – De que forma o tema advocacy pode auxiliar na apuração das reportagens e nas investigações jornalísticas sobre casos de corrupção?
Daniela Castro – Ações de advocacy são estabelecidas após estudos profundos de um problema, com muitas análises de dados, dos marcos legais e em tramitação, das políticas públicas, do mapeamento sistêmico e de atores envolvidos, aliados ou oponentes, além do que está em jogo – quem perde e quem ganha. Tudo isso para a criação de planos de ação, que são fundamentais. Nesse sentido, os movimentos e organizações de advocacy podem ser fontes valiosas para os jornalistas compreenderem melhor o pano de fundo e obterem informações que podem fazer diferença numa reportagem.
Portal IMPRENSA – Que dicas você daria para jornalistas interessados no tema advocacy?
Daniela Castro – O papel do jornalista é fundamental em uma democracia. Informar, colocar luz sobre uma questão, é o primeiro passo para levar a uma mudança social profunda. Assim, buscar informações isentas, corroboradas por especialistas idôneos, colocar duas versões e outros cuidados são ações muito importantes. No Brasil, muitas vezes polarizamos entre lados, bom ou mau. E, obviamente, interesses contrários existem, mas o embate de ideias é salutar. Já houve situações em que debati com a parte contrária politicamente e, embora pensasse de forma distinta, agreguei pontos importantes na aprovação de uma lei. Uma lei ou política afeta a vida das pessoas, e é muita responsabilidade aprová-la. É preciso ouvir as críticas. Em certas vezes mudei de ideia, aprendi. Isso é fundamental. Entender que política não deveria ser Fla x Flu, mas é construção, debate e embate que pode ser salutar.
Portal IMPRENSA – Você costuma dar palestras para jornalistas? Ou essa aula no curso da Abraji será a primeira voltada a esse público?
Daniela Castro – Desde 2002, dou aula de formação política. Fiz parte da Escola de Governo durante anos. Já tive grupos de jornalistas. Nos últimos anos, tenho dado palestra para jornalistas, mas em grupos heterogêneos. Tenho falado mais sobre advocacy, lobby, participação da sociedade civil. Sempre me interessa participar de palestras e debates. Acho que a minha causa hoje é falar sobre a importância da participação política, cidadã, organizada ou não.
Portal IMPRENSA – Você acredita que, em outros países, as pessoas estão mais familiarizadas com o tema advocacy do que no Brasil? Por quê?
Daniela Castro – Os americanos e europeus estão mais familiarizados com o advocacy porque estão mais acostumados a se engajar e investir em causas sociais e políticas. Há a doação à caridade, mas também para defesa de causas. Talvez o envolvimento da população em temas mais coletivos, que afetam a todos, seja cultural vindo da prática também. Não existe um país desenvolvido sem uma sociedade mais ativa. Os temas de direitos socioambientais, econômicos e de políticas públicas afetam toda a sociedade, pessoas, negócios, organizações. As decisões políticas têm escala e são tomadas dia a dia, com ou sem a nossa participação. Quando decidimos não nos envolver, aceitamos o status quo. Mas temos no Brasil movimentos que, embora não se autodeclarassem como de advocacy, o foram. O movimento abolicionista é um exemplo. Temos muitos outros nos tempos atuais, mas precisamos de mais.