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Repórteres são atacados ao cobrir manifestações pró-Bolsonaro

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Repórteres são atacados ao cobrir manifestações pró-Bolsonaro

Foto: Reprodução de reportagem do SBT no momento em que repórter da CNN, é hostilizado por manifestantes em Brasília

ABI

Repórteres de TV, rádio e equipes multimídia de jornais foram hostilizados por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro em 19.abr.2020, durante manifestações em várias cidades pedindo intervenção militar no Brasil – o que pode configurar crime segundo a Constituição da República e a Lei de Segurança Nacional.

Em Brasília, o repórter Rudá Moreira, da CNN Brasil, estava prestes a entrar ao vivo, quando um manifestante interrompeu a transmissão e gritou “Globo lixo”. Depois de deixar o local, um grupo menor de manifestantes continuou a hostilizar a equipe, que acabou se retirando do local. Segundo reportagem do SBT, pouco antes de entrar no carro da emissora, um homem deu um tapa em Rudá Moreira.

Em nota, a CNN Brasil condenou e repudiou o que qualificou como “ato de interferência de caráter intencionalmente invasivo”, durante a realização de reportagens do canal e de seus concorrentes. “Tais iniciativas configuram uma clara agressão ao direito de liberdade de imprensa e um desrespeito ao pleno exercício profissional do repórter”, disse a nota.

Em São Paulo, segundo imagens enviadas à Abraji, cartazes em veículos que participaram da carreata na Avenida Paulista associavam o logo da CNN ao comunismo e chamavam a TV Globo de “Globo Lixo”. Em outro vídeo, enquanto um helicóptero da Globo sobrevoava a manifestação, é possível ouvir um homem sugerir a derrubada da aeronave. Nas últimas semanas, equipes da TV Globo vêm encontrando dificuldades para realizar seu trabalho, devido às invasões de apoiadores do presidente Bolsonaro frente às câmeras e outras formas de hostilidade.

Segundo o departamento de comunicação do Grupo Globo, eventos como esses atrapalham o trabalho dos repórteres, que estão cumprindo a missão de informar. A Globo entende que protestar é um direito do cidadão, sempre que dentro da legalidade, e repudia qualquer tipo de violência. A emissora reiterou que sempre cobre os fatos com isenção e profissionalismo.

Em Porto Alegre, um repórter e um fotógrafo do Grupo RBS, que trabalha para jornal, rádio e internet, foram enviados ao centro da cidade para cobrir as manifestações em favor do governo de Jair Bolsonaro e contra instituições, como o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Os manifestantes também pediam o fim do isolamento social devido à pandemia de covid-19.

Protegidos com máscaras e se mantendo a uma distância segura da mobilização, Fábio Schaffner e Jefferson Botega seguiram as instruções de segurança e não se aproximaram dos manifestantes. Enquanto cobriam a manifestação, viram quatro jovens contrários ao movimento. Uma mulher estava enrolada com bandeira do Brasil e usava uma máscara na qual se lia “Fora Bolsonaro”. Os dois repórteres testemunharam quando os quatro foram encurralados junto à parede de um prédio do Exército, sendo agredidos a socos e pontapés. No vídeo, é possível ver o momento em que um homem sem máscara ou luvas parte para cima fotógrafo. “O tapa era em direção ao rosto,  mas me esquivei e pegou no braço e no equipamento”, conta Jefferson Botega.

Reprodução do vídeo em que um manifestante parte para cima do fotógrafo Jefferson Botega.

Ontem, a Federação Nacional dos Jornalistas e sindicatos emitiram notas de repúdio em resposta sobre a agressão em Brasília e em Porto Alegre. Por meio de uma rede social, o Sindicato dos Jornalistas do Ceará também repudiou o cerco à equipe do jornal O Povo. O repórter Carlos Holanda e o fotógrafo Aurélio Alves foram cobrir a mobilização pela volta do regime militar e do AI-5 – o ato institucional que fechou o Congresso, cassou políticos e instituiu a censura, entre outras perdas de direitos.

Com o clima anti-imprensa instalado, os dois receberam orientação para não abordar organizadores da carreata, que descumpria a ordem de isolamento social decretada pelo governador Camilo Santana (PT).

“Nos cercaram, nos vaiaram, ameaçaram nos agredir fisicamente. Uma senhora segurando um cartaz nos xingou e chegou muito perto do fotógrafo. Quando a coisa ficou inviável, resolvemos sair, tanto por medo de baterem na gente, como por sermos contaminados pelo novo coronavírus, já que muitos apoiadores do presidente não usavam máscaras”, lembrou Carlos Holanda.

“A insegurança à qual os jornalistas vêm sendo submetidos no país desde 2013 já foi denunciada diversas vezes por instituições brasileiras e internacionais, e pela própria Abraji, que monitora essas agressões. Além de tentar conciliar as rotinas de trabalho com o risco de exposição ao vírus, as equipes ainda precisam lidar com o medo de serem agredidas quando saem à rua para produzir reportagens”, afirma o presidente da Abraji, Marcelo Träsel. Para Träsel, “o problema já seria grave o suficiente se a hostilidade aos jornalistas não fosse incentivada pelo presidente da República, por seus filhos e pelo alto escalão do governo quase todos os dias, nas redes sociais e nas entrevistas em frente ao Palácio da Alvorada”.