Um ano depois da pandemia, jornalistas relatam desafios e danos à saúde mental

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Caê Vatiero, Paula Beatriz Neiva e Bruna Lima *

Há um ano, a Organização Mundial da Saúde declarou o início da pandemia da covid-19. Em questão de semanas, o mundo foi surpreendido por uma avalanche de incertezas. A realidade das redações mudou completamente, passou a contar com medidas de segurança severas e um número reduzido de profissionais trabalhando de forma presencial. São inúmeras as transformações que marcam o país até hoje. Enquanto alguns jornalistas precisaram se expor e conviver com o medo de contaminação, possíveis sequelas e morte pela doença, outros tiveram que enfrentar os dilemas gerados pelo home office e isolamento social.

Além das mudanças impostas pela pandemia da covid-19, profissionais de imprensa encontraram, neste período, um ambiente hostil para o exercício da profissão.  Segundo levantamento da Federação Nacional dos Jornalistas, até o fim de jan.2021, 94 profissionais de imprensa morreram da doença.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) ouviu depoimentos de dez jornalistas de diferentes áreas de atuação para entender como a pandemia afetou a rotina de trabalho de cada um e o atual cenário da cobertura jornalística no país. Profissionais do Brasil inteiro, de diferentes veículos de comunicação, vivem há 365 dias batalhas individuais e coletivas a favor da informação.

Paulo Mario Martins, repórter TV Globo Rio | Rio de Janeiro

“Esses 365 dias de tristezas e interrogações foram também 365 dias de intenso malabarismo emocional: um exercício diário de informar sem deixar a peteca cair, de ser forte para encarar tão de perto esse cenário trágico porque a informação é remédio poderoso nesses tempos de fake news e banalização da vida. A pandemia reforçou a importância do jornalismo televisivo, por ter uma grande capilaridade pelo Brasil, a TV permite que a imprensa chegue a muita gente. Felizmente! Porque, até agora, a informação tem sido nossa única vacina em massa contra a pandemia. E a televisão se mostrou um agente importante para levar essa imunização contra a desinformação para os quatro cantos do país. Mas tem sido difícil, a distância física principalmente, sinto muita falta de estar mais na rua  – já que tentamos ao máximo, fazer entrevistas por chamada de vídeo – e, sobretudo, de humanizar a conversa com uma  interação mais próxima com o entrevistado. Eu sou do tipo que não consigo ver o entrevistado se emocionar ao contar sua história e não dar um abraço em seguida. Há um ano estou aprendendo a acolher o entrevistado apenas com o olhar”.

Cristina Tardáguila, diretora assistente da Rede Internacional de Checagem de Fatos 

“Desde 24.jan.2020, 99 organizações já identificaram mais de 12 mil informações enganosas sobre a covid-19, em 77 países, 46 idiomas, 16 fusos horários e em todos os formatos e plataformas. Ou seja, não tem ninguém livre de desinformação. Honestamente, é muito difícil que surja alguma desinformação que não esteja contida na base de dados, já que nós estamos falando de 12 mil dados falsos. Para quem está na redação é necessário saber da existência da base de dados e saber acessá-la. Ela está disponível em inglêsespanhol português. Os checadores se viram obrigados a trabalhar com bases de dados não consolidadas, em construção. Todas as desinformações que eu conhecia antes se somaram. Tinha desinformação racial, religiosa, política, científica, desinformação contra a vacina e agora tudo tem algum pézinho na desinformação sobre covid. A pandemia colocou os checadores em um lugar que eles sempre mereceram, mas que precisou de uma pandemia para mostrar isso. Finalmente, o planeta entendeu que a checagem pode salvar vidas. Checar a informação de que beber álcool puro não cura covid é fundamental”.

Marina Atoji, gerente de projetos da Transparência Brasil | São Paulo

“Neste último ano, a pandemia da covid-19 foi o meu foco de trabalho, principalmente devido aos problemas de transparência pública. Os dados disponíveis pelo Governo Federal atualmente só existem por causa da pressão da imprensa e da sociedade civil, e ainda assim é apenas o mínimo. As maiores conquistas se dividem em duas: impedir retrocessos e ampliar a transparência sobre os dados da covid-19. No primeiro caso, a ação conjunta com outras organizações ajudou a impedir que a MP 928/2020, que suspendia a vigência de prazos da Lei de Acesso durante a pandemia, estivesse em vigor por muito tempo e ajudou a fazer o governo recuar da retirada do painel de casos e mortes por covid-19 do ar. No segundo caso, o aumento gradativo de detalhamento dos dados no painel de casos e mortes e a liberação dos respectivos microdados, além da inclusão, no Portal da Transparência, de links específicos para consultar gastos relacionados à pandemia, ainda não é o ideal, mas já é algo. Essas conquistas só foram possibilitadas por uma ação conjunta”.

Nataly Simões, editora na Agência Alma Preta | São Paulo

“Na época que a pandemia começou eu ainda era repórter e passei a cobrir como a pandemia afetou a população negra, sobretudo das periferias. Havia uma dificuldade no contato com as fontes, pois muitas delas estavam na linha de frente do combate ao coronavírus. Ativistas que atuam nas periferias e médicos do SUS não estavam disponíveis para conversar a maior parte do tempo, havia pessoas também da área da saúde que tinham receio de dar entrevistas por medo de perderem seus empregos.

Paralelamente, acredito que as maiores mudanças foram em relação à saúde mental. É muito difícil ser um profissional da imprensa e nos seus momentos livres ainda ter que lidar com notícias ruins de todos os lados. Era muita informação para lidar durante uma pandemia, com cada vez mais pessoas morrendo. Uma das coisas que profissionalmente eu mais senti foi como o nosso trabalho de imprensa é importante. Mas às vezes confesso que me senti impotente como jornalista. Esse sentimento tentou me derrubar algumas vezes, me desmotivar, mas sigo de pé e acreditando que a informação é uma estratégia importante de conhecimento e  transformação social”.

Alice Pataxó, apresentadora do Canal Nuhé e repórter no Projeto Colabora | Bahia

“A pandemia me colocou de cabeça para baixo, eu diria. Me senti perdida. No início, quando estava na aldeia as coisas continuavam normais, apenas não era uma possibilidade ir para a cidade, o que para mim já era difícil normalmente. Mas as mortes dos nossos parentes que ficaram doentes em outras aldeias começou a ser um choque de realidade! Por outro lado, o meu trabalho serviu como um lugar de denúncia e desabafo. Durante a pandemia tive muitas conquistas profissionais e isso tem sido incrível. Mesmo assim, não é uma carga completa de felicidade. Não poder voltar para casa pela segurança da minha aldeia e estar no meio de tudo isso não me permite comemorar tanto essas barreiras vencidas como gostaria. Tudo isso também interfere na nossa vivência, somos pessoas que vivem de uma coletividade muito maior do que se imagina. Estar distante não só das pessoas como de nossos espaços de convivência e rituais é doloroso, isso enfraquece nosso espírito e me sinto distante. É muito triste toda essa mudança em nossas vidas e todas as perdas, são muitas famílias sofrendo no Brasil, são muitas aldeias de luto, em momentos de choro”.

Caetano Vasconcelos, repórter da Ponte Jornalismo | São Paulo

“De março até dezembro eu fiquei sem fazer reportagens em campo. Por ser do grupo de risco, a redação tentou me preservar o máximo possível. O trabalho em home office e o isolamento social afetaram bastante a minha saúde mental, porque além de estar passando pela transição e hormonização, a Ponte trabalha com pautas muito pesadas e eu acabo noticiando violência todos os dias. Isso mexe muito com o psicológico, porque na situação que estamos vivendo, não podemos ter um respiro, distrair a cabeça, ir a um cinema ou o que quer que seja. Mas o trabalho remoto não foi de todo negativo, a normalização de entrevistas por chamada de vídeo, por exemplo, foi algo positivo para mim, porque, ao invés de ligar por telefone, você faz uma vídeo chamada e consegue diminuir a distância com a fonte”.

Paula Guimarães, cofundadora do Portal Catarinas | Santa Catarina

“A pandemia nos afetou, de forma geral, com sobrecarga de trabalho. Para o jornalista de forma geral, não só para a mulher jornalista, a questão do não ir à campo afetou diretamente o trabalho e a nossa saúde mental. A pandemia agravou isso e ao mesmo tempo nos deu subsídios financeiros para manter a nossa estrutura de alguma forma e agora estamos na luta para manter e ampliar, porque quando chegamos em um lugar de financiamento de uma equipe nós não queremos retroceder. E a realidade está de mal a pior, a situação no Brasil hoje é caótica, é de medo. Eu tenho sentido muito medo, porque o cerco está se fechando cada vez mais. Mesmo que o jornalismo tenha sido visto como atividade prioritária e essencial, nós não tivemos uma diferenciação, principalmente agora na hora da vacina. Nós não somos considerados do grupo prioritário mesmo estando na linha de frente. E a pandemia traz isso, essa urgência de sobreviver ao vírus e sobreviver fazendo o nosso trabalho. É uma luta diária manter uma mídia independente em que a gente coloca o nosso corpo na linha de frente para o trabalho”.

Bibiana Garrido, jornalista e mestre em Comunicação, cofundadora e editora do Jornal Dois | São Paulo – Bauru

“O primeiro impacto que tivemos no Jornal Dois, depois de iniciada a quarentena em combate à covid-19 na cidade de Bauru, onde atuamos, foi a necessidade de material de proteção para ir à rua. Tentamos, sim, na medida do possível, adaptar as reportagens que poderiam ser feitas à distância.Nos vimos na posição e incumbência profissional de apresentar informações contextualizadas sobre a evolução do vírus na cidade e região, pois as mídias tradicionais, na época e até hoje, se limitavam a exibir um quadro diário de números. Ao vivenciar tais experiências, ao testemunhar, a cada semana, a cada mês, o número de famílias em barracos aumentando, dizendo que não tinham mais jeito de continuar, assentamentos sob ameaça de reintegração de posse em meio ao caos da covid-19, famílias tentando reconstruir suas vidas ou apenas sobreviver, pessoas morrendo, amigos morrendo, professores em greve para tentar salvar as vidas da comunidade escolar longe das aulas presenciais, negacionismo da administração pública, trabalhadores de mãos atadas. É um baque. O choro veio, certamente, veio”.

Daniel Carvalho, repórter da Folha de S. Paulo | Brasília

“A cobertura do Planalto foi uma das menos afetadas durante a pandemia. Com o viés negacionista do governo, as agendas foram mantidas como se não houvesse vírus. Continuamos indo ao palácio, mas com cuidados redobrados: máscara o tempo todo, higienização das mesas e tentativa de distanciamento mesmo na hora de entrevistas. Também contamos com a preocupação das chefias. Fui orientado, por exemplo, a deixar um evento que reuniu mais de 200 prefeitos de todo o Brasil. Cobri pela TV. Com o agravamento da situação nas últimas semanas, deixamos de ir ao Planalto e estamos acompanhando tudo remotamente. O trabalho fica mais difícil, mas é o que precisa ser feito. Além do presidente, muitos funcionários do governo se sentem constrangidos a não usar máscara no trabalho, o que aumenta o risco. Ao longo da pandemia, também houve mudança na cobertura do Palácio da Alvorada. Logo no início da crise, diante das agressões verbais de apoiadores, a maioria dos veículos deixou de ir para o cercadinho. Apenas algumas emissoras mantiveram equipes no local. Triste ter o trabalho cerceado por questões de segurança, mas a medida teve que ser adotada porque temíamos agressão física. Cobramos ao governo mudanças na estrutura de trabalho por lá, mas nunca fomos atendidos”.

Maiá Menezes, editora adjunta de política do jornal O Globo e diretora da Abraji, infectada pelo vírus em 2020 | Rio de Janeiro

“No início da pandemia, as redações prepararam um grupo de repórteres para cobrir a pandemia da covid-19 e sua repercussão, mas ninguém nunca iria imaginar o número de casos, mortes e a tremenda polarização que ocorreu na política e na própria sociedade. Com o avançar da pandemia, as consequências econômicas e sanitárias causadas pelo vírus começaram a afetar a estabilidade emocional de jornalistas. No entanto, diante da ‘cobertura da guerra’, a saúde mental passou a ser tratada como algo secundário, não por causa das empresas, mas por causa da velocidade da informação. A prioridade, no jornalismo, é sempre a notícia. É uma profissão essencial neste momento, porque informação é essencial, mas há uma violência contra jornalistas que contam o que realmente está acontecendo durante a pandemia. Esses ataques vêm de autoridades e por parte da sociedade. É um desafio, o que nos resta é torcer e continuar trabalhando”.

Veja mais sobre cobertura especial da Abraji em um ano da pandemia aqui.

*Colaborador e estagiárias da Abraji